Primeira vez
Sim, queridos navegantes, falarei hoje de um assunto muito íntimo e que, embora a minha boca seja beeeem grande e, várias vezes eu cometa o “sincerocídio”, como diria a Sonia Racy, não espalho por aí: a minha primeira vez. Aconteceu por acaso. Eu já não era tão novinha - para os padrões atuais - e estava desencanada sobre o assunto.
Minha vida andava em meio a uma calmaria muito grande e, de repente, comecei a notar algo diferente no escritório. Estava intrigada, mas o meu olhar míope não poderia nunca imaginar que “aquilo” fosse acontecer. E aconteceu. E foi em um lugar inusitado. Foi no banheiro. Sim, foi no banheiro a primeira vez que eu achei um par de cabelos brancos em minha cabeça.
Fiquei a r r a s a d a com a situação. Sei que isso acontece nas melhores famílias cabelísticas, mas... por que comigo? Desesperada, teclei com a primeira pessoa que encontrei no MSN. Era a Cássia, uma grande amiga de infância. Casada. Mãe de dois filhos lindos e cheia de cabelos brancos. A cada mensagem trocada ela me deixava mais nervosa. “Ju, você está ficando velha. Aos trinta (eu ainda não tenho trinta, Cássia!!!!!) as células começam a morrer. É o início do fim, amiga”, dizia.
É claro que a mandei à merda e fechei a janela. Mas o assunto permaneceu literalmente na minha cabeça. Cheguei em casa e pus em cheque tudo o que sempre acreditei. Nunca achei ruim envelhecer. Para falar a verdade eu até achava charmoso os sinais da maturidade. Acho que foi um choque. Na minha percepção, o ser humano sempre se achou imortal, poderoso. Quando a vida nos manda um recado falando para baixarmos a bola, ficamos assim meio sem saber como agir.
Afundada nestes – e muitos outros pensamentos – achei um texto de Simone de Beauvoir muito interessante e que representa em parte as minhas conclusões. Eis o bendito aqui.
“Eu afirmava que, destruindo os controles e as defesas que normalmente nos protegem contra insustentáveis evidências, a embriaguez me obrigava a olhá-las de frente. Penso hoje que, na condição privilegiada que é a minha, a vida envolve duas verdades entre as quais não há como escolher e que cumpre enfrentar juntas: a alegria de existir e o horror de acabar. Mas naquela época eu pulava de uma à outra. A segunda só prevalecia em raros momentos, mas eu a suspeitava de ser a mais válida” (em A Força da Idade)
Bons ventos!
Escrito por Ju às 22h36
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E o evento levou
E o evento levou a sua paz. Eram 17h30 de uma sexta-feira. Toca o telefone e o mundo caiu. Até os mais calmos tremiam e preparavam suas almofadas para se sentarem. Mar em fúria.
Estranhamente ela se mantinha em um padrão diferente dos demais. A onisciência revelava uma certa inquietação que, no entanto, não a fazia perder a razão. O dia termina às 21h e a equipe de rescaldo colocou-a a salvo em uma mesa de bar. A conversa era interessante e as pessoas queridas, mas o seu coração estava estranho. Pressentiu que a grande tormenta não havia passado.
Infelizmente ela estava certa. Os dias sem sol e sem brisas agraveis não vinham mais. E, em seu mundo, sentia que algo estava errado, mas seu orgulho não a permitia pedir ajuda. O ponto de giro disso foi uma conversa banal. “Estou preocupada. Nunca te vi tão esquisita, ansiosa e triste”, dizia o interlocutor.
Sim, todos precisam de ajuda e ela, dentro de sua ignorância mascarada, teve um único momento de lucidez. Um momento essencial. Pegou o seu GPS e se achou. Até onde se sabe, até onde ela se deixa mostrar, parece ter melhorado em muito. Encontrado novamente o seu traçado.
Da última vez que a vi, ouvi-a dizer que, por Pessoa, ela nunca mais sairá tanto de seu eixo.
Bons ventos para ela, para mim e para você também!
Escrito por Ju às 22h09
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